Hoje é a seleção da vez é diferente e muito especial, não sei se vai agrada a maioria que gosta de música Jamaicana, mas Samba é demais, Adoniran Barbosa é demais, e merece seu devido respeito. A coletânea está finérrima, muito boa mesmo, modestia a parte!
Acho bacana comparar o Samba com o Reggae e toda a música old school jamaicana, ambos tiveram muitas mudanças ao longo de tempo, e foram esquecidos a cada ano que passa, desde o ano de seu lançamento, que nem devidamente reconhecidos eram. Nelson Sargento, sambista de primeira, na música Agoniza Mas Não Morre, fala um pouco disso. Olhe só alguns trechos, e confira a música que está presente na seleção.
“Mudaram toda tua estrutura,
te impulseram outra cultura,
e voce não percebeu”
Pois é, mas o samba, como o reggae, resiste, a sua cultura resiste. Coisa boa não pode virar simplesmente história.
Enfim, 100 anos de Adoniran Barbosa, o maior paulista de todos, e para mim um dos melhores compositores. Sua simplicidade conquista, e suas músicas então nem se fala, uma melhor que a outra. E merece essa singela homenagem. A baixo um pouco da sua história, retirada da Folha de S. Paulo, publicada no dia 13/01/10, escrita por Romulo Fróes .
“Dentre suas inúmeras faces, podemos separar o samba em dois sentidos dominantes: o lugar do prazer, da celebração, do ócio e aquele onde a vida é suspensa, o lugar dos sambas tristes, para trás. É comum associar Adoniran Barbosa ao primeiro sentido aqui descrito, mas o vejo como um ponto cego entre esses dois lugares.
Lembrado mais por letras bem-humoradas, suas canções carregam uma melancolia disfarçada. Comicidade e tragédia se misturam em uma mesma canção. Faz graça para fugir do ressentimento de ter sido posto de lado com o surgimento da Jovem Guarda, “(…) e eu que já fui uma brasa, se assoprarem posso acender de novo”. Faz soar engraçadas histórias trágicas ditas com seu linguajar “errado”, aprendido nas ruas do Brás e do Bexiga, onde, como ele mesmo dizia, “o crioulo e o italiano falam igualzinho”.
E alertava, “para falar errado, precisa falar certo”. Vem daí o sorriso no rosto de quem canta uma história triste como a que narra “Saudosa Maloca”.
Percorria toda a cidade com sua música. Era um andarilho, como Nelson Cavaquinho. Mas diferente deste, tinha autonomia sobre seu percurso. Conhecia suas ruas, vilas, favelas, bares, seus personagens e suas histórias. Tudo que via, ouvia, transformava em canções. O “Trem das Onze”, o “Viaduto Santa Ifigênia”, o “Torresmo à Milanesa”, a “Saudosa Maloca”. Comportava-se como um documentarista. Como Noel Rosa, de quem tomou emprestado “Filosofia”, samba com o qual foi premiado em um concurso de intérpretes e que finalmente lhe abriu as portas do rádio.
Adoniran se tornou dentro do samba uma de suas figuras mais singulares. Muitos motivos devem ter contribuído para a construção de seu gênio, mas acho determinante o fato de ter nascido em São Paulo. A cidade, de extrema importância para a música brasileira no que se refere ao seu adensamento, onde desde sempre os movimentos tomam forma e se propagam para o resto do país, tem em Adoniran um dos raros casos de artistas que poderiam representar uma espécie de escola paulista. O fato de até hoje não termos criado uma clara tradição em música popular pode tê-lo liberado das normas tão rígidas do gênero. Sem ter a quem dar satisfação, sentiu-se livre para suas invenções.
Se o samba é carioca e baiano, São Paulo, acusada tantas vezes por sua falta de ginga, gerou um dos mais originais compositores da música popular brasileira. Adoniran era paulista. E só podia ter sido. No fim de sua vida, reclamava que não encontrava mais São Paulo. “O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado”. Teria reencontrado se tivesse procurado em suas próprias canções.”
Abaixo a história da música Saudosa Maloca, contada por Adoniran Barbosa:
“Onde hoje é o Cine Áurea era o Hotel Albion, que acabou sendo demolido. O prédio ficou abandonado por uma porção de tempo. Uns e outros sem compromisso, que pra ganhá pra cachaça e pro sanduíche faziam biscates nas férias, lavavam carros ou eram engraxates, de noite se escondiam lá dentro, pois não tinham onde dormir. Eu conhecia todos eles – o Mato Grosso, o Joca, o Corintiano. Eu visitava eles, junto com o Peteleco [cachorro de Adoniran], naquela moradia. A gente batia papo, se entendia e se queria muito bem. No dia que começou a demolição do casarão, cheguei lá e num vi mais nenhum dos meus amigos. Sumiram, fiquei triste e tive a ideia de fazer um samba pra eles”.
É mais do que claro o seu amor por São Paulo, mas devemos lembrar que era outra São Paulo da que conhecemos, como o final do texto acima disse. Uma vez li em algum lugar uma frase do Adoniran que dizia, mais ou menos assim, que para ele São Paulo morreu na década de 60/70. Imagine se visse hoje? Isso é algo a se pensar e imaginar a São Paulo da época, a vida da época, que pra mim nada mais prazeroso, já que sou completamente nostalgico.
Pois bem, a coletânea começa com uma entrevista e homenagem à Adoniran Barbosa, compilada em 1984 pelo estúdio Eldorado, dois anos depois de sua morte. O arquivo conta com trechos de suas músicas, além dos depoimentos de Elis Regina, amiga de Adoniran e uma de seus melhores intérpretes, e de Mathilde Barbosa, sua viúva. Na foto a cima, Adoniran e Matthilde. Destaque também para o final da segunda parte da homenagem aonde Mathilde conta sobre a música Prova de Carinho, escrita para ela.
E abaixo um video do Adoniran acompanho pelo quarteto Talismã, cantando uma belíssima composição sua, Bom Dia Tristeza, aqui na coletânea a versão é por conta da Maysa, a mais bela versão desta música para mim.
E para finalizar minha singela homenagem, um outro vídeo do mestre do Bixiga, belo video, aonde podemos perceber a tristeza se certas composições suas.
Maravilha, mas Adoniran Barbosa não é o único mestre aqui, tem ainda Nelson Sargento, Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Demonios da Garoa, Beth Carvalho, Moreira da Silva, Bezerra da Silva, entre outros, e até Jorge Aragão!
Queria contar um pouco da história de cada um e de suas músicas, mas a falta de tempo anda meio difícil. Só deixo abaixo uma frase sobre o samba carioca, e os malandros do Rio, Moreira e Bezerra por exemplo.
“Vivem com malandragem. E malandragem não é bandidagem.
Bandido é “bicho solto”. Já dizia o próprio Bezerra,
em parceria com N. Dias, “malandro demais vira bicho”.
O bicho solto acha que é malandro. Para os malandros,
ele é um mané, um otário. ‘
É isso ai, aproveitem a seleção, que foi feita no capricho, com quase 3 horas de cultura e muito samba! Uma música mais bonita que a outra, pura poesia. Isso é samba, valorize sua cultura, isso é Brasil.
Vol.1
01. Documento Inédito – Homenagem e Entrevista pt.1
02. Documento Inédito – Homenagem e Entrevista pt.2
03. Agoniza Mas Não Morre – Nelson Sargento
04. Com Que Roupa – Noel Rosa
05. Quando Eu Me Chamar Saudade – Nora Ney
06. Eu e as Flores – Nelson Cavaquinho
07. Amor de Trapo e Farrapo – Demônios da Garoa
08. Identidade – Jorge Aragão
09. Trem das Onze (ao vivo) – Demônios da Garoa
10. Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa
11. Regresso – Candeia
12. Sempre Só – Beth Carvalho
13. Preciso Me Encontrar – Cartola
14. Carinhoso – Pixinguinha
15. Minha Vez De Sorrir – Nelson Sargento
16. De Álcool ou Poesia – Originais do Samba
17. Triste Margarida (Samba do Metrô) – Adoniran Barbosa
18. Chuva – Paulinho da Viola
19. Conversa De Botequim – Moreira da Silva
20. Um Amor Em Cada Coração – Mussum
21. Barracão – Adoniran Barbosa
22. Samba De Amor – João Nogueira
23. Rua dos Gusmões – Adoniran Barbosa
24. Bom Dia Tristeza – Maysa
Vol.2
01. O Mundo É Um Moinho – Cartola
02. A Flor e o Espinho – Nelson Cavaquinho
03. Chega – Adoniran Barbosa
04. A Chuva Cai – Argemiro Patrocínio
05. Viaduto Santa Efigênia – Adoniran Barbosa
06. Na Subida do Morro – Moreira da Silva
07. Sentimento Perdido – Elton Medeiros
08. Meu Sofrer – Clara Nunes
09. Cidade Lagoa – Moreira da Silva
10. Muro Da Verdade (O Poeta Falou) – Bezerra da Silva
11. Os Três Pagodeiros Do Rio – Moreira, Bezerra e Dicró
12. Abrigo De Vagabundo – Adoniran Barbosa
13. A Maldade Não Tem Fim – Velha Guarda Da Portela
14. Tiro Ao Álvaro – Adoniran Barbosa
15. Meu Bom Juiz – Bezerra da Silva
16. Você Abusou – Beth Carvalho, Alcione, Jorge Aragão & Fundo de Quintal
17. O Samba Do Arnesto – Adoniran Barbosa
18. Pega Eu – Bezerra da Silva
19. Canto de Amor – Originais do Samba
20. Saco de Feijão – Beth Carvalho
21. Não Quero Vingança – Paulinho da Viola
22. Primavera – Nelson Sargento
23. Despejo Na Favela – Adoniran Barbosa
“Samba, agoniza mas não morre”
Nelson Sargento


Cara… tá lindo demais esse blog!
Só a nata!
A coletânea tá de chorar, pra começar bem o final de semana! hehe
Grade Abraço
finissimo … valeu pela coletanea
e todas as outras também muito bem selecionadas
“Samba, a tristeza que balança”